Sua empresa está preparada para usar IA com ROI?

3/ago/2026
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Andre Portella

imagem descritiva de utilização de IA com métricas de ROIA inteligência artificial foi democratizada.

Hoje, as ferramentas de IA generativa estão disponíveis para todos para escrever um prompt e receber um texto, uma análise, uma imagem, uma apresentação ou uma sugestão de automação.

Mas isso não significa que todas as empresas estejam preparadas para capturar valor real com IA.

Na prática, a pergunta que muitos executivos deveriam estar fazendo não é apenas:

“Quais ferramentas de IA devemos adotar?”

A pergunta mais importante é:

“Nossa empresa tem as habilidades, a cultura e os processos necessários para transformar IA em resultado?”

Porque IA não gera valor apenas por estar disponível. Ela gera valor quando é aplicada aos problemas certos, por pessoas que entendem o negócio, com dados confiáveis, governança adequada e métricas claras de sucesso.

E aqui surge uma questão importante: quem, dentro da empresa, tem o perfil mais adequado para liderar essa descoberta?

Seriam os gerentes financeiros? Os gerentes comerciais? Os líderes de marketing? Os gestores de operações? Os especialistas de tecnologia? Os gerentes de produto?

Um estudo conduzido por Amanda Pratt da universidade de Stanford trouxe uma reflexão interessante: as competências necessárias para aplicar IA generativa em fluxos de trabalho individuais são muito próximas das competências de um Gerente de Produto.

Quando a maioria das pessoas começa a usar IA, a primeira pergunta costuma ser:

“O que essa ferramenta faz?”

Um gerente de produto tende a começar por outra pergunta:

“Qual problema vale a pena resolver?”

Essa diferença de mentalidade é fundamental.

Empresas que começam pela tecnologia tendem a criar uma coleção de experimentos dispersos. Cada área testa uma ferramenta, cada profissional cria seus próprios prompts, surgem dezenas de iniciativas interessantes, mas poucas se transformam em processos reais, escaláveis e mensuráveis.

Já empresas que começam pelo problema conseguem direcionar melhor a adoção da IA.

O raciocínio passa a ser outro:

Que tarefa consome muito tempo? Onde existe retrabalho? Que processo depende demais de conhecimento tácito? Onde a qualidade varia conforme a pessoa que executa? Qual decisão poderia ser melhorada com mais contexto? Onde a IA pode reduzir erro, ganhar velocidade ou melhorar a experiência do cliente?

Esse é o ponto: IA não deve ser tratada como um brinquedo tecnológico. Deve ser tratada como uma alavanca de transformação do trabalho e da empresa.

Mas, para isso, é preciso desenvolver novas habilidades.

A primeira habilidade é descobrir problemas que realmente combinam com IA.

Nem toda tarefa precisa de IA. Nem todo processo deve ser automatizado. Existem casos em que a IA pode gerar ganho enorme de produtividade; em outros, pode apenas criar complexidade, risco ou uma falsa sensação de inovação.

Quem conhece profundamente o trabalho geralmente sabe onde estão os gargalos. O desafio é transformar essa percepção em caso de uso.

A segunda habilidade é definir valor antes de definir solução.

O que esperamos ganhar com IA?

Mais velocidade? Mais qualidade? Menos erro? Mais padronização? Melhor experiência do cliente? Redução de custo? Aumento de receita? Melhor tomada de decisão?

Sem essa clareza, qualquer demonstração impressiona, mas pouca coisa se sustenta.

A terceira habilidade é experimentar rápido.

Projetos de IA não nascem perfeitos. Eles nascem como hipóteses.

É preciso testar, errar, ajustar, comparar resultados, descartar o que não funciona e evoluir o que demonstra valor. Esse conceito, muito comum em gestão de produtos, é essencial para IA: criar MVPs, aprender com o uso real e melhorar continuamente.

Mas aqui aparece um grande obstáculo cultural.

Sua empresa está preparada para conviver com experimentos que falham?

Os colaboradores têm liberdade para testar uma nova forma de trabalhar? Podem dizer que uma tentativa com IA não funcionou? Têm segurança para compartilhar erros sem medo de julgamento? Ou a empresa ainda trata falha como incompetência?

Essa pergunta é decisiva.

Muitas organizações dizem que querem inovação, mas continuam operando com uma cultura que pune o erro, controla excessivamente a experimentação e não dá tempo para as pessoas aprenderem.

IA exige uma cultura diferente.

Não uma cultura irresponsável, sem governança. Mas uma cultura que permita experimentar com segurança.

A quarta habilidade é integrar o que funciona ao fluxo real de trabalho.

Esse talvez seja o ponto mais difícil.

Fazer uma prova de conceito é relativamente fácil. Criar uma demonstração bonita também. O verdadeiro desafio é incorporar a IA no dia a dia da empresa.

Isso significa conectar a solução aos dados corretos, aos sistemas existentes, aos processos de aprovação, às regras de segurança, aos indicadores de desempenho e às responsabilidades de cada área.

É aqui que muitos projetos de IA param.

Porque processos complexos raramente pertencem a uma única área.

Uma solução de IA para vendas pode depender de dados financeiros. Uma solução para atendimento pode depender de compliance, jurídico e marketing. Propostas comerciais podem depender de histórico de projetos, precificação, margem, escopo, contratos e informações do cliente.

Ou seja: IA exige colaboração.

E colaboração exige liderança.

Na prática, o papel dos líderes não é apenas comprar licenças de ferramentas de IA, muito menos simplesmente liberar o uso e esperar que a inovação aconteça sozinha.

O papel da liderança é criar as condições para que a IA seja usada com propósito, segurança e foco em resultado.

Isso envolve comunicação clara, treinamento, priorização de casos de uso, governança de dados, segurança da informação, definição de métricas e patrocínio executivo.

Também envolve responder perguntas muito práticas:

Quem pode usar IA? Quais dados podem ser utilizados? Quais informações não podem sair da empresa? Quem valida o resultado gerado pela IA? Como medimos ganho de produtividade? Como calculamos ROI? Como transformamos um bom experimento em processo oficial?

Na minha experiência, vejo que as empresas mais maduras não são necessariamente as que têm mais ferramentas. São as que conseguem organizar melhor a adoção.

Elas não tratam IA como uma iniciativa isolada de tecnologia. Tratam IA como uma transformação na forma como o trabalho é feito.

E essa transformação começa com pessoas.

Pessoas que conhecem o negócio. Pessoas que sabem identificar problemas relevantes. Pessoas que conseguem testar novas abordagens. Pessoas que entendem que a IA não substitui o julgamento humano, mas pode ampliar a capacidade de análise, criação e execução.

A IA foi democratizada, mas o uso eficaz da IA ainda exige método.

Exige olhar crítico. Exige capacidade de priorização. Exige cultura de experimentação. Exige integração com processos reais. Exige liderança.

Por isso, talvez a pergunta mais importante para os executivos hoje não seja:

“Minha empresa já usa IA?”

A pergunta deveria ser:

“Minha empresa sabe transformar IA em produtividade, aprendizado e vantagem competitiva?”

E uma segunda pergunta talvez seja ainda mais provocativa:

“Temos líderes preparados para criar um ambiente onde as pessoas possam descobrir, testar, errar, aprender e escalar o uso de IA?”

A tecnologia está disponível.

A diferença estará na capacidade de transformar essa tecnologia em melhores fluxos de trabalho, melhores decisões e melhores resultados.

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